Bíblia do Caminho Seção Temática

Jeremias

(O Livro de Jeremias)

Jeremias [Jeová estabelece].  † 

O grande profeta filho de Helcias, um sacerdote de Anatote no território de Benjamin (Jr 1.1). Foi chamado ao ofício profético por uma visão. Ele era ainda um jovem e sentiu sua imaturidade, inexperiência e inabilidade de falar aos homens, mas Jeová estendeu-lhe a mão e abriu-lhe a boca, pondo nela palavras, e estabelecendo-o sobre as nações e reinos, para extirpar, derrotar, e destruir, mas também para plantar e construir. Ele foi informado ainda que encontraria oposição violenta de príncipes, sacerdotes e do povo, mas que eles não deveriam prevalecer (1.4-1). Começou a profetizar no ano décimo terceiro do reino de Josias, e continuou seu trabalho até a captura de Jerusalém, no quinto mês do ano undécimo do reino de Zedequias (2,3). Assim sua vida pública estendeu-se pelos últimos dezoito anos do reinado de Josias, os três meses do governo de Joacaz, os onze anos de Joaquim, os três meses de Jeoaquim, e os onze anos e cinco meses de Zedequias, ao todo aproximadamente quarenta e um anos. Sem nunca interromper suas funções proféticas (42 a 44). Os homens de Anatote, sua casa paterna, estavam entre os primeiros a se lhe oporem, ameaçando matá-lo se ele não desistisse de profetizar. Perseverou na sua missão apesar da perseguição, mas ele sentiu profundamente esta oposição dos seus compatriotas, o povo escolhido, à obra de Deus, e implorou por julgamento (Jr 11.18-21; 12.3). A hostilidade ao profeta, que começou em Anatote, depois de um tempo generalizou-se, e novamente clamou por julgamento para seus opositores (18.18-23; 20.12). Mas ele permaneceu fiel aos seus deveres apesar da pungente perseguição. No quarto ano do reinado de Joaquim, Jeremias ditou as profecias que ele tinha proferido durante os vinte anos precedentes, e o escriba Baruque escreveu-as para ele num rolo de um livro. Sabendo que ele estava impedido, por alguma razão não declarada, que sem dúvida duraria ainda muito tempo, de ir à casa de Deus, o profeta disse a Baruque que tomasse o rolo e o levasse ao santuário afim de lê-lo perante o povo que viria ao templo por ocasião de um jejum. O rolo alcançou finalmente o rei, que, depois de ouvir algumas folhas ou colunas lidas, cortou-o em pedaços e lançou-o ao fogo (36.1-26). Por orientação divina o profeta imediatamente preparou um segundo rolo como o primeiro, mas com adições (27-32). Um inimigo seu, o sacerdote Pasur, principal governador do templo, prendeu-o; mas foi liberado no dia seguinte (20.1-3). Durante o sítio de Jerusalém as autoridades judias olharam as profecias de Jeremias acerca do êxito dos caldeus e o subsequente cativeiro de Judá sob o ponto de vista político e militar, em vez do religioso; e disseram que suas predições desfavoráveis dissuadiam os defensores de Jerusalém. E quando os caldeus levantaram temporariamente o sítio para se encontrarem com os egípcios, Jeremias aproveitou a sua ausência para ir a Anatote a negócios, foi acusado de desertar para os caldeus e lançado na prisão (37.1-15). Muitos dias depois, o rei Zedequias libertou-o da prisão, colocando-o sob a guarda do tribunal, (16-21). Mas os príncipes logo meteram-no no calabouço para morrer (38.1-6). Um eunuco etíope teve compaixão dele, e obteve licença do rei para retirá-lo do fosso e deixá-lo sob a guarda da corte. O profeta estava lá quando Jerusalém foi tomada (7-28). Os caldeus consideraram que tinha sofrido muito por eles e, por ordem expressa de Nabucodonosor recebeu tratamento amável. Assim, Nebuzaradã, oficial caldeu, livrou Jeremias da guarda do tribunal e enviou-o com os outros cativos a Rama, pondo-o em liberdade, e concedendo-lhe licença para ir a Babilônia ou permanecer em sua terra natal. Tendo feito a  última escolha, Nebuzaradã deu-lhe alimentos e um presente, e enviou-o à proteção de Gedalias, a quem Nabucodonosor tinha feito governador de Judá (39.11-14; 41.1-6). No assassinato de Gedalias, ele aconselhou muito os judeus a não fugirem para o Egito. Foi em vão; eles não somente foram como compeliram o profeta a acompanhá-los em sua viagem (41.1 a 43.7). Proferiu suas últimas predições em Tafnis no Egito (43.8 a 44.30). A época e a maneira de sua morte são desconhecidas. Além das profecias e das Lamentações que trazem seu nome, ele pode ter escrito alguns salmos que se assemelham a suas composições no estilo.


Além da maioria das profecias o livro de Jeremias revela a vida espiritual de seu autor. Sua mensagem era de destruição da terra nativa, e uma mensagem que trouxe sobre ele o ódio de seus compatriotas; e este fardo levou-o a lamentar-se amargamente por ter nascido (15.10; 20.14-18). Mas ele permaneceu fiel ao dever. Era um homem solitário, incompreendido, difamado, perseguido, seus esforços para o bem estar moral dos seus compatriotas foram fracassados, sem o consolo da vida doméstica e das alegrias sociais (16.1-9), frequentemente mantido em prisão, era forçado a voltar-se tão somente para a consolação a compaixão e a companhia de Deus. Assim, colocando toda sua confiança em Deus, ele percebeu o sentido da responsabilidade individual para com Ele (17.9; 31.29,30). E então vemos que em Jeremias é notavelmente exibida a possibilidade e a realidade da comunhão entre a alma individual e Deus.


A religião no coração e na vida é a nota dominante nas pregações de Jeremias. Foi chamado ao ofício profético cinco anos antes da significativa descoberta do Livro da Lei no templo, durante a reforma do edifício; e estava em meio do seu ofício profético quando o rei Josias, sob a profunda impressão que as palavras do livro lhe deixou, conduziu uma cruzada contra a idolatria e inaugurou um renascimento na adoração nacional. Jeremias, demais, exortou o povo a dar ouvidos às palavras do pacto firmado no monte Sinai; e salientando que Deus visitá-los-ia com males pela desobediência, e que a obediência era o primeiro requisito do convênio (Jr 11.1-8). Jeremias vigiou o povo de limitar a reforma às coisas exteriores; levando-a para a vida interior, no espírito dos profetas mais antigos, dos provérbios familiares e do próprio pacto (1 Sm 15.22; Is 1.11-17; Am 5.21-24; Mq 6.6-8; Pv 15.8; Dt 10.12), e usou a negação retórica, frequentemente empregada para antíteses enfáticas (ex. Dt 5.3), negou que Deus desejasse o sacrifício, e insistiu que o requisito era a obediência. Deus certamente recomendou o sacrifício (Ex 20.24; 23.14-19; Dt 12.6), mas não falou de sacrifício. O sacrifício não era seu tema, Deus falou de conduta moral (Jr 7.21-28; cp. 6.20; 14.12). Os sacrifícios do obediente são agradáveis a Deus (17.24-26; 27.19-22; 33.10,11,18); mas os jejuns e sacrifícios desses que se apartam dele não o são agradáveis (14.10-12). Confiar na presença de Jeová no meio de Israel, em ser o templo de Jeová, é também vão; e igualmente vão é tão somente possuir a lei de Jeová. Só a obediência é proveitosa (7.4-7; 8.7-9). Eventualmente mesmo a arca não será mais lembrada (3.16). Deus olha para o coração (11.20; 17.10; 20.12). Para servir a Deus o homem deve eximir-se da luxúria carnal (4.4; cp. Dt 10.16), lavar-se da maldade (4.14), e retornar a Deus de todo o coração e não fingidamente (3.10; 17.5). No devido tempo Jeremias anuncia novo pacto, quando o povo terá um coração novo e a  lei de Deus estiver escrita nele (24.7; 31.33; 32.39,40). Suas visões descobrem a glória verdadeira do reino futuro. Doravante esta verdade tem um lugar principal na mente do povo de Deus.


Jeremias escreveu algumas das suas profecias no reinado de Joaquim, mas o rolo foi destruído pelo rei (36.1-23). Ele logo foi rescrito, contendo, todavia, grandes adições (32). O livro atual é uma ampliação que inclui as  últimas profecias, e foi reestruturado; ele foi preparado no final de seu ministério; as profecias de períodos diferentes são colocadas juntas e aquelas do mesmo período são frequentemente distribuídas pelo livro. O livro consiste numa introdução narrando a chamada do profeta (1), três seções de profecias, frequentemente registradas em relação aos acontecimentos que chamaram a atenção do profeta (2 a 51), e um apêndice histórico, adicionado provavelmente por um escritor posterior ( 52, cp. 51.64). As três seções proféticas são: I. Predição da proximidade do julgamento de Judá e da promessa do retorno do exílio (2 a 33). Incluindo uma denúncia geral contra Judá ( 2 a 20), denúncia dos governadores civis e religiosos (21 a 23), a revelação dos desígnios e duração do julgamento (24 a 29), e a profecia das bênçãos que seguirá o julgamento (30 a 33). II. História da consumação do julgamento (4 a 44), incluindo denúncias de corrupções que prevaleceram imediatamente antes da destruição da cidade 34 a 38), narrativa da destruição da cidade de Jerusalém (39), das condições  miseráveis dos que restaram, e das profecias anunciadas a eles (40 a 44). III. Predições com respeito às nações estrangeiras (46 a 51), com introdução dirigida a Baruque (45). O Messias é anunciado em 23.5-8; 30.4-11 e 33.14-26; e a aliança certa de Jeová com Israel é reafirmada em 31.31-40; 32.36-44 e cap. 33. O texto da Septuaginta difere consideravelmente do hebraico: caps. 46 a 51 não só estão organizados em uma ordem diferente entre si, mas uma seção inteira foi inserida depois de 25.13; os capítulos 39.16-20, e 33.14-26, e 39.4-13, e 52.28-30 estão faltando no grego; e em muitos outros lugares a versão grega apresenta um texto mais curto do que o hebraico (ex.. 2.1,2; 7.1-3). Este texto mais curto é frequentemente devido à ausência de palavras sem importância; tal como a falta habitual de “o profeta” quando Jeremias é nomeado (ex.. 28.5,11,15), “o rei”, quando o nome próprio é mencionado (36.32; 37.17) e vice versa (ex. 26.22,23; 37.18,21), “dos exércitos” depois de Jeová (ex. 6.6,9), “Senhor dos exércitos, Deus de Israel” onde o título Senhor substitui Jeová (ex. 7.21; 19.15), e “assim diz o Senhor”, onde a expressão é a voz de Deus pai (ex. 2.9; 3.10; 7.1). A ordem cronológica das profecias e narrativas, segundo as datas explícitas, fica assim:

No reinado de Josias que foi de trinta e um anos: Aos treze anos de seu reinado, cap. 1. Entre o ano 13 até o ano 31, caps. 2 a 6 (cp. 3.6) e talvez os caps. 7 a12 e 14 a 20.

No reinado de Joacaz de 3 meses: Nenhuma.

No reinado de Joaquim de onze anos: No princípio, caps. 26 e talvez 22.1-19, no quarto ano (cp. 10,18,19). Depois do quarto ano, caps. 25, 36, 45, 46.1-12. Cap. 35 (cp. 1,11)

No reinado de Joaquim de três meses: Provavelmente, 22.20-30 e talvez cap. 13 (cp. 18 com 22.26 e 2 Rs 24.12).

No reinado de Zedequias de onze anos:

No começo, caps. 24; 49.34-39. No quarto ano, caps. 27 (cp. 3, 12; cap. 28.1), 28; 51.59-64.

Durante a primeira parte do sítio enquanto Jeremias ainda estava liberto, cap. 34.

Durante a interrupção do sítio, cap. 37 (cp. 4,6).

Depois da continuação do sítio, quando Jeremias estava preso: Caps. 32 (No décimo ano) 33, 38, 39.15-18.

Em Judá, depois da queda de Jerusalém: Caps. 39.1-14; 40.1 a 43.7.

No Egito, 43.8-13; e 44.

Sem data mas nem sempre sem indicações de época: Caps. 23, 30, 31, 45, 46.13 a 48 e 49 a 51.58.

Apêndice, cap. 52. — (Dicionário da Bíblia de John D. Davis©


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